Dr Eric Augusto de O. Boeing – Médico de Família em Jaragua do Sul.

Vivemos mergulhados no caos moderno: uma era onde temos toda a tecnologia dos Jetsons, mas menos tempo do que nunca. Esse novo estilo de vida, embora prático, moldou hábitos automáticos que nos empurram para um sedentarismo invisível e perigoso. Entender como a tecnologia e a urgência do dia a dia afetam nossa saúde é o ponto de partida essencial para quem deseja retomar o controle da própria rotina e transformar sua qualidade de vida.

estilo de vida

Em 1962, os Jetsons trouxeram uma visão de futuro contendo carros voadores, robôs domésticos, e chamadas de vídeo. O Futuro chegou, mas ele não é exatamente como no desenho animado. Em vez de ganhar tempo com a tecnologia, perdemos.

São horas no trânsito parado, ou rolando um feed de um aplicativo. Para depois vir a sensação de que a vida está passando e estamos envelhecendo. E será que estamos envelhecendo da forma que queremos envelhecer?

A ciência já é categórica em dizer: nosso estilo de vida é um dos principais fatores de risco para diversas doenças, como por exemplo o infarto. Acontece que precisamos entender que a forma que estamos vivendo hoje é fruto das escolhas que fazemos.

A dinâmica cotidiana pede agilidade, rapidez. A sensação de urgência ao resolver problemas que parecem que deveriam ter sido resolvidos há 1 mês é avassaladora e constante. Resultado disso são nossas escolhas que priorizam essa agilidade. Com isso a mais sacrificada é a alimentação saudável.

Comidas congeladas para micro-ondas ou até frituras já pré-prontas fazem parte do nosso cardápio diário. E qual o problema disso? É sabido que os alimentos ultraprocessados contêm quantidades imensas de sal que prejudica as funções cardíacas. Assim como outros conservantes que podem levar a outras doenças. Esse é o preço que pagamos pela conveniência de uma refeição que fica pronta em três minutos.

Assim como as comidas que precisam ser rápidas, nosso tempo para o autocuidado precisa ser “gerenciado”. Deixamos para depois atividades físicas, ou momentos de lazer. E enxergamos como um luxo não merecido esse tipo de coisa.

Um grande exemplo de nossas escolhas são os vídeos curtos. Ao mesmo tempo que evitamos correr o risco de ficar mais sem tempo ainda para iniciar uma atividade física, abrimos o celular e passamos algumas boas horas assistindo vídeos curtos dos mais variados assuntos, rolando esse feed infinito. A sobrecarga das tarefas diárias cria uma estafa mental que ficamos congelados pelo excesso de compromissos. E encontramos nesse tipo de diversão uma fuga, que inicialmente é até prazerosa. Porém nos drena para um ciclo sem fim em que o resultado é o sentimento de culpa. Um terreno fértil para a ansiedade e a depressão.

Esse conforto que a modernidade nos trouxe, também resulta no sedentarismo que se torna estrutural da sociedade. Imagine a seguinte situação de Paulo:

Paulo mora em um apartamento no centro da cidade. Acorda 05:30, dá 4 passos até o banheiro. Toma seu banho, e caminha mais 4 passos até o guarda roupa para se vestir. Mais 07 passos chega à sua cozinha. Prepara seu café, e senta para comer. Durante a refeição, assiste em seu celular uma série de vídeos curtos, o corpo está parado, mas a mente está acelerada. Ele caminha mais 7 passos para escovar os dentes, 15 até o elevador e 10 até o carro. Onde vai sentado até o trabalho que fica a 3km de distância de sua casa, enfrentando um trânsito praticamente parado.

No total, Paulo não caminhou nem 50 passos para começar o dia. Se o trabalho dele for administrativo, passará mais 8 horas sentado. É um choque pensar que nossos antepassados caminhavam quilômetros apenas para sobreviver. Fomos projetados para o movimento, mas construímos um mundo que nos mantém estáticos, e esse “congelamento” está estragando nossa “máquina biológica”.

Diante desse cenário, a pergunta que fica não é como podemos voltar a viver como nossos ancestrais, mas sim: como podemos adaptar nossa biologia antiga ao mundo moderno sem adoecer?

A minha proposta ao longo desta discussão não é te entregar fórmulas mágicas ou rotinas de atletas de elite que não cabem na sua realidade. Quero discutir contigo possibilidades reais. Vamos trabalhar com o conceito de ‘passos de bebê’. São pequenas mudanças, ajustes quase imperceptíveis na rotina que, somados ao longo do tempo, geram uma transformação profunda na sua saúde e na forma como você chegará à sua velhice.

No entanto, antes de darmos o primeiro passo físico, precisamos de um passo mental. O ponto de partida mais importante é identificar e aceitar. Muitas vezes, vivemos no automático para evitar o peso da culpa. Ignoramos que passamos três horas no celular ou que nossa única caminhada foi do sofá para a cama porque dói admitir que perdemos o controle. Mas a mudança só acontece quando olhamos para o nosso estado atual com honestidade, e, acima de tudo, sem julgamentos. Aceitar não é se conformar. É reconhecer onde você está no mapa para poder traçar a rota de onde quer chegar. Sem esse “check-in” com a realidade, qualquer meta se torna apenas mais uma cobrança frustrante na sua lista de tarefas.

Uma ótima semana!

Dr Eric Augusto Boeing

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